Círculos Restaurativos – Facilitadora

Facilitadora de Círculos Restaurativos, que consiste em uma prática de auxílio na comunicação, através da Comunicação Não-Violenta e da Mediação Sistêmica, para casal, famílias, grupos, comunidades e coletividades em geral como escolas, condomínios, empresas.

Estudos de negociações trabalhistas, por ex., demonstram que o tempo necessário para atingir a solução do conflito é reduzido à metade quando cada negociador concorda, antes de responder, em repetir precisamente o que o interlocutor anterior disse.

Se a pessoa que está ao nosso lado se sente escutada e compreendida, as chances dela estar disposta a te ouvir e compreender são muito maiores.

Queremos ser aceitos, ouvidos, queridos. Ninguém quer ser odiado, agredido, criticado. A questão mais fundamental é que a necessidade de conexão é universal. Todos nós sentimos essa necessidade.

“Para além das idéias de bem e de mal existe um campo. Lá nos encontraremos.”
(Rumi – poeta sufi)


Mas o que é Comunicação Não-Violenta (CNV)?

Conflitos podem unir

Um papo com Dominic Barter sobre a investigação de diálogos como chave no reequilíbrio de sistemas

“Meu caminho sempre foi marcado pela investigação do processo de cura, nos indivíduos e na sociedade” Assim começa o papo com Dominic Barter, um inglês de fala pausada que há 23 anos mora no Rio de Janeiro, investigando como podemos reequilibrar os sistemas vivos a partir do entendimento que o conflito pode unir, ao invés de separar. Profundamente impactado pelo contexto brasileiro da época em que chegou no Brasil (1992), percebeu que só do que precisava era de vontade para poder trazer alguma transformação no que ele chama de guerra civil não declarada. Para ele, a única coisa possível de ser feita era ouvir e tentar entender as pessoas nas áreas da cidade onde diziam que ele não poderia ir.

Em resumo, o que é a Comunicação Não-Violenta?

É uma maneira de focar a atenção para realçar aquilo que nos une. Normalmente, estamos focados em nossas diferenças e não em nossas semelhanças. Isso nos apoia a enxergar a diversidade, mas corre o risco de gerar separação. A CNV aprimora a capacidade de valorizar as nossas diferenças e de nos conectarmos naquilo que compartilhamos.

Às vezes, falamos a verdade do que estamos sentindo e geramos mais atrito. Quais são as ferramentas para que a comunicação leve à compreensão de visões diferentes ao invés de gerar mais desentendimento?

A CNV coloca nossa atenção no sentido do que o outro está dizendo, que não é sempre expresso pelas palavras usadas. Isso nos ajuda a entender que cada expressão, mesmo aquelas mais desafiadoras de ouvir, são tentativas de expressar valores e princípios compartilhados por todos nós. Mesmo que seja difícil de acreditar, por trás de algumas das atitudes mais destrutivas há o desejo frustrado de contribuir para a justiça, a verdade, o amor e a compreensão. Em minha experiência em ouvir milhares de pessoas que cometeram e sofreram atos dolorosos, nunca houve uma ocasião em que a motivação mais profunda não fosse algo que eu também encontrava em meu coração. Esses valores são ocultos até que a gente escute não somente o que a pessoa fala, mas também a humanidade de quem fala.

E como podemos fazer isso?

Não existe um “como” para conseguir escutar o outro. No momento em que estabelecemos o “como”, colocamos o poder de agir em algum lugar externo a nós, como se fosse estranho ouvir o outro com sua humanidade. Não tem nada de estranho nisso. O que é estranho é as pessoas não se comportarem mais assim. Uma das práticas que podem ajudar as pessoas a se entenderem é lembrar que nossos sentimentos não são causados pelas ações dos outros. Algumas hábitos de linguagem, como “Você me irrita” ou “Você me faz feliz”, podem nos levar a pensar que são os outros que nos deixam satisfeitos ou insatisfeitos, felizes ou tristes, amados ou rejeitados. É importante lembrar que nossos sentimentos não vêm deles, mas de nossos próprios valores, que quando estão sendo satisfeitos, nos fazem experimentar sentimentos que nutrem, como felicidade, curiosidade, animação, segurança. Contudo, quando esses valores não são cuidados, experimentamos medo, tristeza, raiva e confusão. Assumir responsabilidade por nossos sentimentos traz imenso alívio para nossas relações.

Porque nos comunicamos de maneira violenta?

Por acreditarmos que os outros são a fonte do nosso bem-estar ou mal-estar e termos exaurido nossas tentativas de sermos compreendidos por eles, às vezes nos parece que nossa única saída é desistir ou agredir o outro. A violência acontece quando abrimos mão do outro ou nos impomos a ele, achando que não é possível que os dois ganhem ao mesmo tempo. Ninguém gosta da violência, mas a justificamos dizendo “eu ou ele”, em vez de “eu e ele”. Recentemente, em um Círculo Restaurativo com um jovem infrator e com a família que sofreu seus atos, eu ouvi as palavras “ele me desrespeitou, e mereceu o que recebeu” serem transformadas em “eu não gostei da forma que me tratou. Queria que ele me respeitasse. Só sabia dizer isso daquela forma. Mas foi mal, agora tenho que viver com isso para o resto da minha vida. Nunca mais quero me expressar assim”. Para a família, essa diferença teve um impacto muito forte. Juntos foram capazes de pensar em maneiras práticas para este jovem aprender a se expressar sem ameaçar nem machucar.

Qual o papel do conflito no processo de evolução?

Entendo conflito como é um mecanismo de feedback de um sistema, que avisa os componentes de que algo mudou. Assim pode ser visto como uma força que nos mantém conectados à atualidade, adaptando-se num mundo em constante mudança. Por isso conflito pode ser vista também como um motor de inovação, crescimento e desenvolvimento. Perdemos isso quando o conflito é visto como algo problemático, que precisa ser evitado, em vez de algo que garante um constante processo de mutação e criatividade. Se escutamos verdadeiramente o que o conflito nos aponta e caminhamos em direção a ele, encontramos respostas que trazem evolução, como no caso da Nigéria.

Nesse sentido, o momento atual do mundo é muito bem vindo!

O valor do conflito acontece quando temos capacidade e procedimentos que nos apoiam a responder a ele. Se não sabemos responder ou queremos nos afastar dele, ele aumenta seu volume, o que é doloroso. Se isso também é ignorado, gera violência. Então, eu não vejo de forma feliz o aumento de tensão social e violência na sociedade. Eu não aposto, mas vejo muita possibilidade de transformação, muita riqueza e crescimento se começarmos a olhar para os conflitos atuais de maneira restaurativa, nos aproximando deles. Trazer pra perto a violência e ajudá-la a voltar a ser conflito, que nada mais é do que uma mensagem avisando que algo mudou e que precisamos mudar nosso comportamento pra acompanhar essa mudança. A questão não é o conflito, mas nossa capacidade de resposta.

Você acha que uma prática espiritual pode ajudar nesse entendimento de si para interagir melhor com o outro?

Para mim, esse processo de auto-observação e cuidado mútuo é em si uma prática espiritual. Até questiono a adoção de uma prática espiritual como algo que acoplamos na vida, como se a espiritualidade fosse praticada somente nos momentos de meditação. Eu não vejo a espiritualidade separada do dia-a-dia. Minha prática espiritual são os outros, somos nós, é a descoberta da comunidade onde parecia que ela não existia, a descoberta do compartilhado onde ele é negado.

( Dominic Barter entrevistado por Carolina Bergier, publicado na Revista Bons Fluídos  e Medium.com )

>> Quer saber mais sobre Comunicação Não-Violenta? Separa um tempinho pra mudar sua vida e assista a esse vídeo do Marshall Rosemberg, que foi quem sistematizou a CNV.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s